Espiritualidade e saúde do coração: o que a ciência já sabe (e o que ainda não sabe)

Espiritualidade e saúde do coração: o que a ciência já sabe (e o que ainda não sabe)

4 de November de 2026

Espiritualidade e saúde do coração podem parecer assuntos de mundos diferentes. Mas, cada vez mais, a ciência e os consultórios mostram que eles conversam. E não estamos falando necessariamente de religião: estamos falando de propósito, de sentido, de paz interior e daquilo que sustenta cada pessoa nos momentos mais difíceis. 

Esse foi o tema do quarto episódio de Cardiocare Cast. Uma conversa foi conduzida pela Dra. Viviana Lemke, cardiologista intervencionista e diretora técnica da Cardiocare, reuniu dois convidados. O Dr. Maurício Sperandio é cardiologista, mestrando em Bioética pela PUC-PR, pós-graduado em Integração da Espiritualidade na Prática Clínica pela Universidade Federal de Juiz de Fora e presidente do Departamento de Espiritualidade e Medicina Cardiovascular da Sociedade Paranaense de Cardiologia. O Dr. Walmor Lemke é cardiologista, sócio da Cardiocare, e tem se dedicado ao tema na prática do consultório. 

Neste artigo, reunimos os principais pontos do episódio: a diferença entre espiritualidade, religiosidade e religião, como o que sentimos pode chegar às artérias, o que dizem os grandes estudos, por que remoer mágoas pesa no corpo, como funciona a anamnese espiritual e o que fazer quando a crença atrapalha o tratamento. Assista ao episódio completo no vídeo abaixo e siga a leitura para se aprofundar em cada tema. 


Espiritualidade e religião são a mesma coisa? 

Não. E entender essa diferença é o primeiro passo para falar do tema com seriedade. Como lembrou o Dr. Maurício, quando a medicina fala em espiritualidade, ela se refere ao contexto da saúde, e não a um conceito teológico ou filosófico. 

A religião é um sistema de crença, valores e tradições, que pode ser vivido individualmente ou em comunidade. Dependendo de como o termo é definido, há levantamentos que contam cerca de 4.200 tradições religiosas no mundo. Religiosidade é o quanto e como a pessoa pratica essa religião: de forma individual, como numa oração pessoal, ou coletiva, na vida em comunidade. 

Já a espiritualidade é mais ampla e, por isso mesmo, mais difícil de definir. O Dr. Maurício citou alguns caminhos. Há autores que trazem uma visão mais transcendental, ligada ao sagrado e ao que tem valor último para uma pessoa. Há o consenso liderado pela médica americana Christina Puchalski, que descreve a espiritualidade a partir de quatro componentes: sentido existencial, propósito de vida , conexão e transcendência, não necessariamente divina, mas com algo que vai além de si mesmo. Há uma definição definida pelo departamento de espiritualidade da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), reforçada na psicologia positiva e ligada aos valores que norteiam pensamentos, emoções e atitudes. 

Em outras palavras, a religiosidade pode fazer parte da espiritualidade, mas a espiritualidade não depende dela. 

“A religiosidade está dentro da espiritualidade .” Dr. Walmor Lemke   

Quem não tem religião também tem espiritualidade? 

Sim. A definição da SBC foi pensada para valer para todas as pessoas, inclusive ateus e agnósticos. Segundo o Dr. Maurício, a ideia é justamente não deixar ninguém de fora. 

Quem não acredita em Deus ou em uma dimensão transcendente costuma viver esse sentido de vida por meio de outras conexões: a família, as artes, a natureza, um projeto social, aquilo que é significativo e faz a pessoa florescer. No cuidado em saúde, é a partir desses valores pessoais que o médico consegue se aproximar. 

No consultório, isso aparece quando há espaço para aparecer. O Dr. Walmor contou que, ao dar uma aula sobre espiritualidade para um grupo religioso, precisou justamente ampliar a ideia, mostrando que ela vai além da religião. Na prática clínica, aprendi a “garimpar” as palavras do paciente: muitas pessoas agnósticas ou ateias revelam uma espiritualidade profunda, especialmente quando o médico abre espaço para essa conversa e deixa de lado os próprios preconceitos. 

Por que a cardiologia passou a falar de espiritualidade? 

Porque cuidar do paciente de forma integral inclui todas as dimensões da vida, e a espiritualidade é uma delas. Para o Dr. Maurício, o ser humano adolescente e se recupera de várias dimensões ao mesmo tempo: biológica, psicológica, social, espiritual, ambiental e cultural. A espiritualidade é uma fatia desse todo e toca de forma especial do paciente brasileiro, que costuma ser mais religioso do que a mídia mundial. 

Ele vai além: depois de décadas de estudos acumulados sobre saúde e espiritualidade, ignorar esse conhecimento pode ser considerado uma falha ética, quando o médico deixa passar um sofrimento ou deixa de usar uma ferramenta que poderia beneficiar o paciente. 

Foi esse entendimento que levou a SBC a criar, no início da década de 2010, um grupo de estudos sobre espiritualidade, que mais tarde se tornou um departamento da sociedade. Em 2021, a SBC publicou um Posicionamento sobre Hipertensão Arterial e Espiritualidade, que orienta os cardiologistas a abordar o tema com respaldo científico e sempre com respeito às preocupações de cada paciente. 

A trajetória do próprio Dr. Maurício ilustra essa virada. Paulista, ele chegou ao curso de Matemática antes da Medicina, entrou na faculdade pensando em ser psiquiatra e se encontrou na cardiologia. Em 2023, distanciou-se dos esportes por uma lesão na coluna, aproveitou o tempo para estudar e iniciou a pós-graduação em Integração da Espiritualidade na Prática Clínica, coordenada pelo psiquiatra Alexander Moreira-Almeida, um dos principais pesquisadores do tema no país. Segundo ele, essa formação mudou a forma como conduz a carreira. 

Como o que sentimos chega às artérias? 

Ainda não existe um mecanismo totalmente esclarecido, e o Dr. Maurício fez questão de deixar isso claro. Mas há modelos bem treinados, como os propostos pelo psiquiatra americano Harold Koenig, que apontam dois caminhos principais. 

O caminho biológico. Emoções e vivências passam pelo sistema que integra mente, sistema nervoso, imunidade e hormônios, o chamado sistema psiconeuroimunoendocrinológico. Por meio do sistema nervoso autônomo, com menos atividade simpática (a que acelera o organismo em situações de estresse) e mais atividade parassimpática (a que acalma), esse equilíbrio repercute nos vasos sanguíneos. Alguns estudos também mostram marcadores inflamatórios mais baixos, como a proteína C reativa (PCR). 

O caminho comportamental. Em média, pessoas com religiosidade ou espiritualidade mais apresentam tendência a beber e fumar menos, usar menos drogas, ter relações familiares e comunitárias mais saudáveis, se alimentar melhor, praticar mais exercícios e seguir melhor o tratamento. Esses comportamentos se refletem nos melhores estágios cardiovasculares. 

O Posicionamento da SBC de 2021 segue a mesma linha ao explicar a relação com a pressão arterial: o estresse específico ativo o sistema nervoso simpático e a liberação de cortisol, o que contribui para a elevação da pressão. O documento também cita ensaios clínicos em que a meditação transcendental prejudica a pressão arterial entre 4 e 6 mmHg. 

Estresse e depressão aumentam o risco de infarto? 

Sim, é com um peso maior do que muita gente imagina. Uma Dra. Viviana trouxe para a conversa o estudo INTERHEART, publicado em 2004 e considerado um dos estudos epidemiológicos mais importantes da cardiologia. 

O estudo comparou cerca de 30 mil pessoas em 52 países, incluindo o Brasil: metade delas depois de um primeiro infarto e metade sem infarto. O objetivo era entender o que leva ao primeiro evento. Foram identificados novos fatores de risco que respondem pela grande maioria desse risco na população, entre eles hipertensão, diabetes, obesidade abdominal, colesterol alterado, tabagismo e sedentarismo. E também os fatores psicossociais, como o estresse e a depressão. 

O dado que mais chama a atenção, como explicou o Dr. Maurício, é que os fatores psicossociais ficaram em terceiro lugar entre os mais relevantes, atrás apenas do tabagismo e das alterações do colesterol, com um peso maior do que da hipertensão e do diabetes. 

Para a prática clínica, isso tem uma implicação importante. Maurício usa uma expressão conhecida no controle da aterosclerose, o risco residual: aquele risco que continua mesmo com os exames sob controle. Às vezes, ele não está no laboratório, e sim em como estão o casamento, a relação com os filhos, o trabalho, a fé ou os valores do paciente, se ele guarda mágoas ou tem explosões de raiva. Quando isso entra na investigação do cardiologista, o atendimento se torna mais humano e o paciente é mais respeitado em sua dignidade. 

“O fator de risco residual que talvez falte ser controlado para evitar o próximo evento pode não estar nos exames de laboratório ou numa angiotomografia coronariana .”   Dr. Maurício Sperandio 

Walmor percebe essa mudança no consultório: cada vez mais cardiologistas estão atentos ao tema, e os próprios pacientes chegam mais informados e querem falar sobre isso. Alguns, segundo ele, já começamos a consultar contando como estão esse aspecto, antes mesmo de falar de pressão ou colesterol. 

E, em tempos de inteligência artificial, o Dr. Maurício lembrou que essa talvez seja a parte mais insubstituível do trabalho médico: a relação pessoal. A medicina personalizada, tão falada hoje, começa por considerar a pessoa como um todo, nos seus sofrimentos, alegrias e desejos. 

O que os grandes estudos mostram sobre espiritualidade e mortalidade? 

Mostramos associações consistentes, que merecem atenção, mas que ainda não provam uma relação de causa e efeito. Foi assim que o próprio Dr. Maurício apresentou os dados. 

O estudo mais citado é o Nurses’ Health Study, da Universidade Harvard, que acompanhou mais de 74 mil enfermeiras americanas entre 1996 e 2012. As que frequentavam serviços religiosos mais de uma vez por semana tiveram mortalidade cerca de um terço menor do que as que nunca frequentavam, com redução também da mortalidade cardiovascular e por câncer. Entre as mulheres que mantiveram uma frequência ao longo do tempo, a associação foi ainda mais forte, próxima da metade do risco, número destacado pelo Dr. Parte dessa associação foi explicada por fatores como apoio social, menos sintomas depressivos, menos tabagismo e mais otimismo. 

Outro estudo, com 191 pacientes com insuficiência cardíaca acompanhada por cinco anos, encontrou um resultado curioso: o que se associou à menor mortalidade não foi frequentar cultos, mas a sensação de paz interior. Para o Dr. Maurício, isso conversa com os mecanismos biológicos: o cultivo de bons sentimentos repercute na inflamação, na reatividade dos vasos e na variabilidade da frequência cardíaca. 

A ressalva, feita pelo próprio convidado, é essencial: são estudos observacionais, e espetaculares não indicam causalidade. Para provar causa e efeito, serão necessários estudos de intervenção. Ainda assim, pelo tamanho e pela qualidade metodológica, esses resultados merecem ser valorizados. A própria SBC classifica as evidências como promissórias, mas não definitivas, e regulares que há estudos com resultados discordantes. 

Guardar mágoa faz mal ao coração? 

A ciência indica que emoções negativas persistentes repercutem no corpo, inclusive no sistema cardiovascular. Maurício citou o posicionamento da American Heart Association sobre saúde psicológica e saúde cardiovascular, que orienta os cardiologistas a rastrear emoções negativas e, mais do que isso, a cultivar as positivas. 

Segundo ele, a literatura mostra que explosões de raiva aumentam o risco de infarto nas horas seguintes, e que eventos emocionais intensos elevam o risco cardiovascular nas primeiras 24 a 48 horas. Já o ressentimento e a ruminação, que fica remoendo uma ofensa, se associam a maior reatividade dos vasos e da inflamação. 

Uma Dra. Viviana trouxe um exemplo de sua prática como cardiologista intervencionista: pacientes que enfartam logo depois de um grande estresse, às vezes com as coronárias normais. É o caso da síndrome de Takotsubo, também conhecido como síndrome do coração partido, que se apresenta como um infarto e costuma estar ligado a uma emoção intensa. 

O Dr. Maurício também fez um alerta importante: a religiosidade nem sempre é benéfica. Quando traz culpa, medo, sensação de abandono, remorso ou solidão, ela também pode causar sofrimento. Por isso, o papel do médico é, no mínimo, perceber esse sofrimento. Ele lembrou uma frase da médica inglesa Cicely Saunders, pioneira dos cuidados paliativos: 

“O sofrimento só é insuportável quando ninguém cuida .” Cicely Saunders  

Mesmo quando não há ferramentas para ajudar, o médico que enxerga o sofrimento pode encaminhar o paciente a quem ajuda. 

O perdão se aprende? 

Sim. Para o Dr. Maurício, o perdão pode ser exercido como qualquer outra capacidade humana. Exige esforço, mas é possível. 

Ele contou que uma das coisas que mais o fascinaram ao estudar o tema foi perceber que palavras como perdão, compaixão e benevolência deixaram de pertencer apenas à filosofia e à teologia. Hoje, elas aparecem em estudos científicos que relacionam esses valores a melhores resultados em saúde. 

Um ponto importante é entender o que o perdão não é. Perdoar não significa isentar o agressor da responsabilidade nem fingir que nada aconteceu. O perdão é, antes de tudo, um benefício para quem perdoa: significa reduzir a ruminação e o ressentimento, aquele movimento de reviver a dor repetidamente. 

O Dr. Walmor ilustrou isso com uma história de consultório, compartilhada sem identificação. Uma paciente que havia perdido um ente querido mais de dez anos antes ainda vivia a perda como se fosse recente e não se perdoasse. Para ajudá-la, ele usava uma imagem: a de descer ao porão, pegar uma velha fita de videocassete e assistir de novo a um filme de terror. Aos poucos, ela mesma passou a perceber quando estava “voltando ao porão” e a interrompeu esses pensamentos, com o marido acompanhando de perto essa mudança. É um exemplo de como o médico pode fazer diferença também nessa dimensão, sempre respeitando o ritmo de cada paciente. 

O que é anamnese espiritual e como ela funciona? 

A anamnese espiritual é o conjunto de perguntas que o médico faz para entender os valores, as opiniões e as fontes de apoio do paciente, e como isso pode influenciar o tratamento. A SBC orienta que ela faça parte do atendimento. 

Segundo o Dr. Maurício, um rastreio rápido é fácil de fazer. Existem questionários de perguntas abertas, como o FICA e o HOPE, e escalas de perguntas fechadas, que permitem quantificar os resultados. O FICA é um bom exemplo, porque cada letra lembra um tema: 

  • F de fé: quais valores, verdade e fé a pessoa abraça. 
  • I de importância: qual a relevância disso na vida dela. 
  • C de comunidade: existe uma rede de apoio que pode ajudar no tratamento. 
  • A de ação: como esses valores podem ajudar na própria condução médica. 

Há também perguntas mais aprofundadas, como “você está em paz?”, que ajuda a investigar o sentido de vida e os propósitos do paciente, além de formas de avaliar o enfrentamento religioso e espiritual, positivo ou negativo, e o sofrimento espiritual. Na cardiologia, um tema específico são as experiências de quase morte relatadas por algumas pessoas que sobreviveram a uma parada cardíaca: elas às vezes deixam marcas e raramente são questionadas. 

Por isso, a resposta do Dr. Maurício foi: é fácil e não é. O rastreio é simples, mas aprofunda o tema que exige estudo e preparação, para não cometer erros na abordagem. E, como lembrou a Dra. Viviana, também exige sensibilidade para perceber o quanto o paciente quer falar sobre isso. 

E quando você atrapalha o tratamento? 

Isso é mais comum do que se imagina, e o caminho é acolhedor, nunca confrontador. Maurício explicou que mesmo pessoas de fé muito fortes podem mencionar que geram sofrimento: a ideia de que adoraram porque a fé não foi forte o suficiente, de que a doença é um castigo ou de que Deus as abandonou. 

Há também situações em que a crença interfere diretamente no cuidado, como quando o paciente acha que não precisa dos remédios porque a fé vai curá-lo, ou que não deve fazer uma cirurgia porque aquele é o destino que Deus lhe deu. 

Nesses casos, segundo ele, o médico deve agir como faria diante de qualquer outro sofrimento: acolher, sem contra-argumentar de forma frontal. Pergunte por que uma pessoa pensa assim, o que levou a esse julgamento e como é possível caminhar junto, respeitando a fé dela. Quando faz sentido, e com a autorização do paciente, também é possível pedir o apoio do líder religioso da comunidade a quem ele pertence. 

O Posicionamento da SBC reforça esse cuidado: a religião não deve ser prescrita nem imposta, justamente para não exigir culpa a quem já carrega o peso de uma doença. A espiritualidade é um recurso que pode somar ao cuidado, e não substituir o tratamento. 

Quem cuida também precisa de cuidado 

Uma Dra. Viviana liderou uma conversa para o outro lado da mesa: com tantas dimensões a considerar, o médico não se cansa? 

O Dr. Maurício aprendeu dois tipos de cansaço. Um vem da quantidade de coisas que é preciso olhar em uma consulta curta, que já mal comporta perguntas sobre exercício e alimentação. O outro vem do contato mais pessoal e humanizado, o que alguns autores chamam de fadiga por compaixão. 

Aqui, ele trouxe uma visão provocadora, aprendida em um treinamento com o pesquisador Shane Sinclair, referência internacional no estudo da compaixão: a compaixão bem praticada não cansa. O que cansa é não conseguir praticá-la. Compaixão, nesse sentido, é a empatia colocada na prática, agir pelo bem de quem está sofrendo. Para isso, o médico precisa de preparo emocional, para não se sobrecarregar com o sofrimento do outro, e para lidar com o chamado sofrimento moral, quando sabe o que seria melhor para o paciente, mas esbarra na vontade dele. 

Questionado sobre o que o sustenta nos dias mais difíceis, o Dr. Walmor respondeu com a própria trajetória. Sua agenda é formada principalmente por pacientes que o acompanham há muitos anos, várias com doenças graves. Dois deles são de residência médica há 36 anos. Ver essas pessoas envelhecem e percebem que já não será possível fazer muito por elas organicamente é difícil. Mas a alegria desse encontro, e a realização de ver um paciente tomar o remédio, voltar a se exercitar ou parar de fumar, tornam o trabalho mais leve. 

“Para o médico , a realização pessoal vem através da realização do paciente . E aí entra muito da espiritualidade : ela torna a coisa muito mais leve .” Dr. Walmor Lemke   

Uma pergunta para levar com você: você está em paz? 

Ao encerrar, a Dra. Viviana resumiu o espírito do episódio: cuidar do coração é muito mais amplo do que cuidar do órgão físico. É também cuidar daquilo que dá sentido à vida. E lembrei, com uma explicação importante, que a ciência ainda está construindo essas respostas. O que existe hoje é promissor, mas não substitui, em nenhuma hipótese, o acompanhamento médico e o tratamento. 

A pergunta que ela deixou para quem assistiu é a mesma que faz parte das ferramentas de rastreio mencionadas no episódio: você está em paz? Vale pensar nela com carinho. 


Perguntas sobre espiritualidade e saúde do coração

Qual a diferença entre espiritualidade e religião? 

A religião é um sistema organizado de crenças, valores e tradições. Religiosidade é o quanto uma pessoa pratica essa religião. A espiritualidade é mais ampla: envolve sentido de vida, propósito, conexão e transcendência, e pode existir com ou sem religião. 

A espiritualidade faz bem para o coração? 

Grandes estudos observacionais associam a espiritualidade e a religiosidade à menor mortalidade, inclusive cardiovascular, e a SBC considera como evidências promissórias. Mas essas pesquisas mostram associação, não causa e efeito, e a espiritualidade não substitui o acompanhamento médico nem o tratamento. 

Estresse e depressão aumentam o risco de infarto? 

Sim. No estudo INTERHEART, realizado em 52 países, fatores psicossociais como estresse e depressão ficaram entre os mais relevantes para o primeiro infarto, com peso maior do que o da hipertensão e do diabetes. 

Guardar mágoa faz mal ao coração? 

Emoções negativas persistentes, como ressentimento e ruminação, se associam a maior reatividade dos vasos e a inflamação, e explosões de raiva aumentam o risco de infarto nas horas seguintes. Por isso, os especialistas recomendam rastrear essas emoções e cultivares como positivas. 

Quem não tem religião também tem espiritualidade? 

Sim. Pela definição da SBC, a espiritualidade vale para todas as pessoas, inclusive ateus e agnósticos, e pode ser vivida por meio da família, das artes, da natureza, de projetos sociais e de outros valores significativos. 

O que é anamnese espiritual? 

É o conjunto de perguntas que o médico faz para conhecer os valores, as preocupações e a rede de apoio do paciente, e entender como isso pode influenciar o tratamento. Ferramentas como o questionário FICA ajudam a fazer esse rastreamento de forma rápida e respeitosa. 

A fé pode substituir o tratamento médico? 

Não. A espiritualidade pode somar ao cuidado, ajudando no enfrentamento da doença e na adesão ao tratamento, mas não substitui remédios, exames ou procedimentos indicados pelo médico. 


 

Cuidado completo, para o coração e para a pessoa 

Na Cardiocare , pensamos que cuidar do coração é cuidar da pessoa por inteiro. Nosso corpo clínico reúne mais de 70 médicos, entre cardiologistas e especialistas de áreas integradas, com consultas e exames cardiológicos no mesmo lugar. Se você quer cuidar da sua saúde cardiovascular com acompanhamento próximo e humano, agende sua consulta . 

Assista ao episódio completo em nosso canal do YouTube e acompanhe a Cardiocare nas redes sociais para mais conteúdos sobre saúde do coração. 

Cardiocare – Nós ganhamos com o coração. 

 


Estudos e documentos citados 

  • Yusuf S, et al. Efeito de fatores de risco potencialmente modificáveis ​​associados ao infarto do miocárdio em 52 países (o estudo INTERHEART): estudo caso-controle. Lanceta. 2004;364(9438):937-952. 
  • Li S, Stampfer MJ, Williams DR, VanderWeele TJ. Associação de frequência a serviços religiosos com mortalidade entre mulheres. Medicina Interna JAMA. 2016;176(6):777-785. 
  • Parque CL, et al. A paz espiritual prevê a mortalidade em 5 anos em pacientes com insuficiência cardíaca congestiva. Psicologia da Saúde. 2016;35(3):203-210. 
  • Nobre F, Esporcatte R, et al. Posicionamento sobre Hipertensão Arterial e Espiritualidade 2021. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2021;117(3):599-613. 

Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo, com base nas falas dos participantes do episódio 04 do Cardiocare Cast. Os estudos citados são, em sua maioria, observacionais e mostram associações, não relações de causa e efeito. Práticas espirituais ou religiosas não substituem o acompanhamento médico nem o tratamento. Os relatos de consultório foram compartilhados sem identificação dos pacientes. Este conteúdo não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Em caso de sintomas ou dúvidas sobre sua saúde, procure um médico.