Envelhecer com saúde: o que um cardiologista e uma geriatra ensinam sobre longevidade
Viver mais é um desejo quase universal. Mas viver melhor, chegando aos 80, 90 anos com autonomia, disposição e qualidade de vida, é algo que se constrói ao longo do caminho. E, segundo os especialistas, nunca é tarde para começar.
Esse foi o tema central do segundo episódio do Cardiocare Cast, o podcast da Cardiocare, gravado na Associação Médica do Paraná (AMP). A conversa foi conduzida pela Dra. Viviana Lemke, cardiologista intervencionista e diretora técnica da Cardiocare, e reuniu dois olhares complementares sobre a longevidade: o do cardiologista Dr. Fabio Okipney (RQE 16709) e o da geriatra Dra. Marcela Belleza (RQE 33262).
Neste artigo, reunimos os principais pontos abordados no episódio: dos fatores de risco cardiovascular à importância do sono, da alimentação, do exercício físico e até do convívio social. Você pode assistir à conversa completa no vídeo abaixo e continuar a leitura para se aprofundar em cada tema.
O que é envelhecer com saúde?
Envelhecer com saúde não significa, necessariamente, envelhecer sem nenhuma doença. Significa chegar à idade avançada com autonomia, qualidade de vida e as condições de saúde bem acompanhadas e compensadas.
Como explicou a Dra. Marcela Belleza no episódio, é raro encontrar pacientes de 80 ou 90 anos sem doença alguma, mas é cada vez mais comum encontrar pacientes dessa idade vivendo bem, plenos e felizes, mesmo convivendo com condições crônicas que estão tratadas e controladas.
O segredo, segundo a geriatra, está na preparação: quem envelhece bem, em geral, percebeu em algum momento que queria chegar lá, e se preparou para isso, cuidando da saúde, consolidando vínculos e mantendo um propósito de vida ativo mesmo após a aposentadoria.
A Dra. Viviana acrescentou uma observação de décadas de consultório: os pacientes mais longevos costumam compartilhar três características marcantes, que são o bom humor, a resiliência e o propósito. São pessoas que levam a vida com leveza, sabem lidar com as intercorrências e têm motivos para levantar da cama todos os dias.
Os grandes fatores de risco cardiovascular
Nem todo mundo chega à idade avançada sem doenças. É aqui que entra a cardiologia preventiva. O Dr. Fabio Okipney lembrou que a lista de fatores de risco para doença aterosclerótica já ultrapassa 90 itens catalogados pela ciência, mas um pequeno grupo concentra a imensa maioria dos casos.
Os principais fatores de risco destacados no episódio são:
- Hipertensão arterial (pressão alta)
- Colesterol elevado (especialmente o LDL, o chamado “colesterol ruim”)
- Obesidade e ganho de peso progressivo ao longo dos anos
- Sedentarismo
- Estresse
Esses fatores, somados a outros como tabagismo, diabetes, consumo de álcool e má qualidade do sono, desencadeiam um processo que a cardiologia chama de contínuo cardiovascular: os fatores de risco geram estresse oxidativo, que lesiona a parede dos vasos, favorece o acúmulo de colesterol e leva à aterosclerose, que pode culminar em infarto, AVC e insuficiência cardíaca.
Um dado citado no episódio ilustra a dimensão do problema: a aterosclerose já responde por cerca de 20% das causas de mortalidade no mundo, o que representa aproximadamente uma em cada cinco mortes.
Colesterol: separando a ciência da desinformação
Um dos momentos mais enfáticos da conversa foi dedicado a combater a desinformação sobre colesterol que circula nas redes sociais. Os especialistas foram claros: o colesterol LDL elevado é um fator de risco consolidado pela ciência. E as artérias que entopem por acúmulo de gordura não estão apenas no coração.
Como explicou a Dra. Viviana, a obstrução arterial pode acontecer no coração (causando infarto), no cérebro (causando AVC), no intestino, nos rins e nas pernas. Trata-se de uma doença difusa, que afeta todo o organismo.
O Dr. Fabio detalhou ainda os avanços recentes no tratamento: além das já conhecidas estatinas, os últimos anos trouxeram novas classes de medicamentos, incluindo anticorpos monoclonais injetáveis, capazes de atingir níveis de LDL muito mais baixos do que era possível antes. E os estudos científicos, conduzidos com rigor e acompanhados por órgãos reguladores, apontam na mesma direção: quanto mais baixo o LDL, menor o risco de eventos cardiovasculares.
O cardiologista também desmontou um receio comum: o de que o colesterol muito baixo faria mal ao cérebro. Segundo os estudos citados no episódio, ocorre o contrário. A redução do colesterol está associada à diminuição do risco de demência, já que a doença cerebrovascular está entre as principais causas de declínio cognitivo.
Polifarmácia: quando o idoso toma muitos remédios
É comum que o paciente idoso, especialmente o cardiopata, utilize cinco ou mais medicamentos diferentes, situação que a medicina chama de polifarmácia. No episódio, a Dra. Marcela explicou que existe a polifarmácia racional, em que cada medicamento tem uma indicação clara e necessária, e há também os casos em que a lista cresce com vitaminas e remédios sem indicação precisa.
É nesse cenário que o geriatra assume um papel que a Dra. Marcela descreveu com uma imagem precisa, a de maestro da orquestra: o profissional que organiza as prescrições, conversa com o cardiologista, o endocrinologista e o neurologista, e garante que o conjunto do tratamento faça sentido para aquele paciente.
O Dr. Fabio complementou com um dado importante sobre adesão ao tratamento: estudos mostram que combinar medicamentos em um único comprimido (as chamadas pílulas combinadas) melhora significativamente a adesão. E cerca de 25% dos pacientes que precisam tomar remédio duas vezes ao dia esquecem a dose da noite. Simplificar o esquema terapêutico, quando possível, é uma estratégia que salva vidas.
Estenose aórtica e TAVI: o procedimento que mudou a história do paciente idoso
A conversa também abordou uma condição muito prevalente após os 80 anos: a estenose aórtica, o endurecimento progressivo da válvula aórtica, que funciona como a “porta de saída” do sangue do coração para o corpo. Quando essa válvula não abre adequadamente, o sangue fica represado, o coração se sobrecarrega e surgem sintomas como falta de ar, tontura e desmaios.
Até pouco tempo atrás, o único tratamento efetivo era a cirurgia de peito aberto, muitas vezes inviável para pacientes muito idosos. Isso mudou com a TAVI (implante de válvula aórtica por cateter), procedimento minimamente invasivo realizado por meio de um pequeno acesso, geralmente na virilha.
Como destacou a Dra. Viviana, que é cardiologista intervencionista, os resultados impressionam: em média, o paciente recebe alta em poucos dias e tem a trajetória da doença completamente modificada. A Dra. Marcela reforçou o olhar da geriatria: para o idoso bem avaliado e com indicação correta, o procedimento devolve qualidade de vida. O episódio lembrou ainda que, em alguns locais, a TAVI já está disponível também pelo SUS, com indicações específicas.
Alimentação no envelhecimento: a importância da proteína
Quando o assunto é alimentação do idoso, a Dra. Marcela fez questão de abandonar a palavra “dieta”, que sugere algo temporário, para falar em orientação alimentar para a vida. A alimentação do idoso precisa ser completa: com carboidratos, gorduras boas, metas adequadas de calorias e, principalmente, proteína suficiente.
Um detalhe interessante levantado no episódio: com o envelhecimento, é comum que a pessoa vá perdendo o interesse por alimentos proteicos, em parte porque a própria digestão da proteína se torna mais difícil. O problema é que a proteína é essencial para preservar a massa muscular, que naturalmente começa a diminuir a partir dos 50 anos.
E a recomendação dos especialistas é clara: sempre que possível, a proteína deve vir da comida de verdade, como carnes, frango e ovos, e não apenas de suplementos, porque o alimento traz junto vitaminas e minerais que o organismo também precisa.
Exercício físico: nunca é tarde para começar
Se existe um consenso absoluto entre cardiologia e geriatria, é este: o exercício físico é um dos pilares mais poderosos da longevidade. E a ciência recente trouxe boas notícias para quem nunca se exercitou.
O Dr. Fabio citou grandes estudos populacionais mostrando que mesmo 10 minutos de caminhada por dia já reduzem o risco de eventos cardiovasculares, e que os benefícios aparecem independentemente da idade em que a pessoa começa. Começar aos 60, 70 ou 80 anos vale a pena.
O cardiologista trouxe também uma analogia que resume bem o conceito: o exercício funciona como um remédio, que protege enquanto está sendo “tomado”. Quem foi atleta na juventude, mas parou, perdeu o efeito protetor. Quem retoma a atividade, recupera a proteção.
Como referência, a Sociedade Brasileira de Cardiologia recomenda cerca de 150 minutos de atividade física por semana, distribuídos em pelo menos três dias. E o episódio lembrou que exercício não é sinônimo de academia: caminhadas, dança, hidroginástica e atividades em grupo contam. Curitiba, citada na conversa, oferece diversos centros de atividade para idosos, muitos deles gratuitos.
Outro dado destacado: para quem está acima do peso, perder cerca de 10% do peso corporal já produz impacto mensurável na redução do risco cardiovascular.
Sono, ronco e apneia: a conexão pouco conhecida com o coração
A qualidade do sono entrou na conversa como um dos pilares modernos da saúde cardiovascular, e com razão. Dormir menos de seis horas por noite está associado a aumento da mortalidade cardiovascular, segundo dados citados no episódio.
Mas o destaque foi para uma condição muito prevalente e subdiagnosticada: a apneia do sono. O Dr. Fabio explicou que a pessoa com apneia ronca, tem pausas na respiração durante a noite e pode passar longos períodos com queda na oxigenação, o que afeta o corpo inteiro.
Sinais que merecem atenção, segundo os especialistas:
- Ronco intenso, geralmente notado pelo cônjuge
- Acordar cansado, mesmo após uma noite inteira de sono
- Sonolência durante o dia, como cochilar vendo filmes ou, mais grave, ao volante
- Queixas de esquecimento e falta de atenção
- Pressão alta difícil de controlar, mesmo com vários medicamentos
A Dra. Viviana, que há muitos anos realiza os laudos de MAPA (monitorização ambulatorial da pressão arterial) da Cardiocare, reforçou a conexão: o paciente que ronca tende a ter mais pressão alta e mais risco de arritmias como a fibrilação atrial, que, por sua vez, é uma das arritmias que mais causam AVC. A boa notícia é que, ao tratar a apneia do sono, é comum observar melhora da pressão e do ritmo cardíaco.
Os especialistas também fizeram um alerta sobre os remédios para dormir: usados por longos períodos, medicamentos indutores do sono estão associados a prejuízos de memória e a maior risco de quedas no idoso, um evento que pode ter consequências graves. E o álcool, muitas vezes usado “para pegar no sono”, na verdade compromete a arquitetura do sono e piora o ronco.
Memória: o que é esquecimento normal e o que merece investigação
“Meu pai está muito esquecido. Isso é normal da idade?” Essa é uma das perguntas que mais chegam ao consultório da geriatra. E a Dra. Marcela ofereceu um critério simples e valioso para diferenciar.
Dificuldade de lembrar é normal do envelhecimento: é aquela situação de ver um ator na televisão, não lembrar o nome na hora e a informação “voltar” minutos depois. O cérebro fica um pouco mais lento, mas a memória está lá.
Esquecimento que preocupa é aquele que interfere nas atividades do dia a dia: esquecer de tomar os remédios de sempre, deixar o fogão aceso, perder-se em trajetos conhecidos, ter dificuldade para conversar ou marcar compromissos. Esses sinais merecem investigação médica.
O Dr. Fabio acrescentou um ponto que conecta os temas do episódio: perda de memória antes dos 70 anos raramente é doença degenerativa. Com frequência, está associada a hábitos de vida, especialmente à má qualidade do sono. Antes de pensar em vitaminas ou suplementos, vale investigar como a pessoa está dormindo.
Vacinação: uma aliada inesperada do coração
Um tema que surgiu espontaneamente na conversa, e que rendeu um dos momentos mais informativos do episódio, foi a vacinação do adulto e do idoso. A Dra. Marcela lembrou que a carteira de vacinação não é coisa só de criança: ela deveria ser levada tão a sério na vida adulta quanto na infância.
E a relação com o coração é direta. Como explicou o Dr. Fabio, uma infecção respiratória desencadeia uma cascata inflamatória que afeta o corpo inteiro e pode precipitar eventos cardiovasculares. Estudos citados no episódio associam a vacinação contra a gripe e contra a Covid-19 a reduções expressivas no risco de infarto e AVC, além de diminuírem internações, especialmente entre os mais idosos.
Os especialistas lembraram ainda que a maioria dessas vacinas está disponível gratuitamente na rede pública, incluindo a vacina pneumocócica, cujo esquema foi recentemente simplificado para dose única em determinados públicos.
Propósito, amizades e bom humor: o ingrediente que a ciência confirma
Talvez a mensagem mais bonita do episódio não tenha vindo de um exame ou de um medicamento. Ao falar sobre o que os pacientes mais longevos têm em comum, os três médicos convergiram para o mesmo ponto: convívio social, propósito e alegria de viver.
A Dra. Marcela destacou que o convívio social está associado ao aumento da longevidade e à redução da mortalidade, e que atividades em grupo criam um ciclo virtuoso: quem tem compromisso com os amigos da hidroginástica, do grupo de dança ou das viagens engaja mais, se movimenta mais e vive melhor. Um puxa o outro.
Não por acaso, estudos sobre as chamadas “zonas azuis”, as regiões do mundo com maior concentração de centenários, apontam as relações pessoais como um dos grandes segredos da longevidade.
As mensagens finais dos especialistas
Ao encerrar o episódio, a Dra. Viviana pediu a cada convidado uma mensagem para os pacientes. A resposta da Dra. Marcela veio em forma de orientação prática: quando é a hora de procurar um geriatra? “A hora que essa dúvida passou pela cabeça, pode ir”. Isso porque o geriatra atua tanto na construção de um envelhecimento saudável quanto na garantia de qualidade de vida para quem já chegou lá.
Já o Dr. Fabio deixou um convite à constância: “Vale a pena se cuidar”. Todos os dias, fazer uma coisa pela própria saúde: trocar o doce pela fruta, ir à academia, tomar a vacina em dia. Pequenas escolhas diárias cuja recompensa vem lá na frente. E não deixar de fazer os check-ups, porque a medicina baseada em evidências existe para ajudar.
A Dra. Viviana encerrou com uma constatação que resume o espírito do episódio: os idosos de hoje não são como os de décadas atrás. São pessoas ativas, que pedalam, praticam artes marciais, frequentam academias e, acima de tudo, buscam qualidade de vida. É exatamente esse cuidado integral que a parceria entre cardiologia e geriatria proporciona.
Perguntas frequentes sobre longevidade e saúde do coração
O que é envelhecer com saúde?
Envelhecer com saúde é chegar à idade avançada com autonomia e qualidade de vida, o que não significa, necessariamente, não ter nenhuma doença. Condições crônicas bem acompanhadas e controladas são compatíveis com um envelhecimento pleno e ativo.
Quais são os principais fatores de risco para o coração?
Os principais fatores de risco cardiovascular são hipertensão arterial, colesterol LDL elevado, obesidade, sedentarismo e estresse, somados a tabagismo, diabetes, consumo de álcool e má qualidade do sono. Juntos, eles respondem pela grande maioria dos casos de aterosclerose.
Com que idade devo começar a me exercitar? Já é tarde para mim?
Nunca é tarde. Estudos mostram que os benefícios do exercício físico para o coração aparecem independentemente da idade em que a pessoa começa. Mesmo pequenas doses, como 10 minutos de caminhada diária, já reduzem o risco cardiovascular. A recomendação geral é de cerca de 150 minutos de atividade por semana, sempre com orientação médica.
Ronco pode ser sinal de problema no coração?
Pode. O ronco intenso é um dos principais sinais da apneia do sono, condição associada a pressão alta de difícil controle, arritmias como a fibrilação atrial e maior risco de AVC. Quem ronca muito, acorda cansado ou sente sonolência durante o dia deve conversar com um médico.
Quando o esquecimento no idoso é motivo de preocupação?
A dificuldade de lembrar um nome que “volta” depois de alguns minutos é normal do envelhecimento. O esquecimento que preocupa é aquele que interfere na rotina: esquecer medicamentos de uso diário, deixar o fogão aceso ou perder-se em trajetos conhecidos. Nesses casos, é importante procurar avaliação médica.
Quando devo procurar um geriatra?
Segundo a geriatra Dra. Marcela Belleza, no episódio do Cardiocare Cast: se a dúvida já passou pela sua cabeça, essa é a hora. O geriatra atua tanto na prevenção, construindo um envelhecimento saudável, quanto no cuidado de quem já está na idade avançada, garantindo qualidade de vida.
Cuide do seu coração em todas as fases da vida
Na Cardiocare, o cuidado com a longevidade é levado a sério e colocado em prática. Nosso corpo clínico reúne cerca de 70 médicos, entre cardiologistas e especialistas de áreas integradas como a geriatria, atuando de forma coordenada para acompanhar cada paciente em todas as fases da vida. Consultas e exames cardiológicos no mesmo lugar, com a experiência de quem há mais de 25 anos é referência em cardiologia em Curitiba.
Assista ao episódio completo no nosso canal do YouTube e acompanhe a Cardiocare nas redes sociais para mais conteúdos sobre saúde do coração.
Cardiocare – Nós trabalhamos com o coração.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo, com base nas falas dos especialistas no episódio 02 do Cardiocare Cast. Ele não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Em caso de sintomas ou dúvidas sobre sua saúde, procure um médico.
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